Patrick Monteiro de Barros – À bolina no mundo dos negócios – Na Eles&Elas 299

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É um empresário de indiscutível sucesso e um homem muito interessante. Representou Portugal três vezes nas águas olímpicas como velejador, e ainda hoje continua a bolinar nos tempos livres. Como empresário, já teve participações em várias empresas de muitos setores, incluindo a maior refinaria independente de petróleo dos Estados Unidos. Defende a exploração deste recurso em Portugal e também já insistiu no investimento no nuclear. Homem de convicções fortes, Patrick Monteiro de Barros tem uma vida cheia que aceitou recordar nesta entrevista exclusiva.4

Ao fim de tantos anos de luta, ainda mantém vivo o sonho e a vontade de trazer o nuclear para Portugal?

Penso que neste momento não há possibilidade de relançar o projeto nuclear. Neste momento, insisto. Principalmente quando hoje temos um enorme excesso de capacidade de energias renováveis instaladas, principalmente eólicas e há uma capacidade de energia convencional que tem de estar em standby, razão pela qual nós hoje temos energia elétrica das mais caras da Europa. Não há condições neste momento para lançar o nuclear, por termos excesso de capacidade produtora.

Que vantagens é que vê no setor da energia nuclear?

O nuclear tem evidentemente algumas questões associadas, mas as vantagens do nuclear são, em primeiro, o facto de não produzir CO2. Se acreditamos na teoria que diz que as mudanças climatéricas são resultado das emissões crescentes de CO2, o nuclear é a fonte de energia que menos produz CO2. Além disso, o nuclear é uma produção constante. As energias renováveis, como a energia solar ou a eólica, produzem mas não constantemente. Tem uma carreira também muito ligada ao petróleo.

Preocupa-o o fim deste recurso?

A energia fóssil (petróleo e o gás natural) vai continuar ainda durante várias décadas a ser a principal fonte de energia. O esgotamento do petróleo não é para amanhã, e há previsões feitas internacionalmente que atestam isto. A percentagem relativa vai baixar, a favor das renováveis. Nós sabemos que existem reservas de petróleo em Portugal.

O que pensa da possibilidade de elas serem exploradas? Eu inclusivamente participei em algumas pesquisas de petróleo em Portugal, e eu não posso afirmar que haja reservas provadas. Há, sim, indícios da existência de petróleo no nosso país. Até agora, as pesquisas que foram feitas onshore indicam que esses indícios não eram suficientes para produzir. Penso que temos de desenvolver o país, que é muito pobre, tem poucos recursos naturais e, se há a mínima possibilidade de haver petróleo, nós temos de ir à procura dele. Nós não somos ricos ao ponto de podermos dispensar sequer essa hipótese. Há alguns “fundamentalistas” que defendem essa posição, mas eu considero que eles estão completamente enganados.

Preocupa-o a questão da poluição e da sustentabilidade?

Nós não podemos ser mais papistas que o Papa. Houve, sem dúvida, alguns incidentes, mas estes acontecem em toda a parte! Tal como podemos estar preocupados com os resultados de uma pesquisa offshore, eu também posso estar preocupado com a construção de uma barragem que pode poluir um rio ou matar dezenas de milhares de pessoas, como já aconteceu. Mas lobby das renováveis nunca gosta de ouvir falar nisso.

Alguma vez pensou investir nas renováveis?

Realizar um investimento direto, não. Mas indiretamente sim. Sou acionista de empresas que têm produção de energia, inclusivamente renováveis. As energias renováveis têm sido, até agora, um negócio fabuloso! A subsidiação é tal que tem uma taxa de retorno de investimento altíssima! Uma grande companhia europeia que tem investimentos em Portugal no setor nas renováveis diz num relatório e contas de há uns anos que Portugal é o melhor país para investir (obviamente atendendo à sua dimensão). No meu caso, nunca investi diretamente. É preciso um conjunto de licenças, e a adjudicação das mesmas deixa a desejar.

Como é que vê neste momento a situação económica do país?

A situação económica de Portugal é preocupante. Foi recentemente anunciado que a taxa de desemprego estava perto dos 10%, o que é uma redução substancial, ainda que artificial. Desde 2010, saíram de Portugal 780 mil pessoas, o que equivale, numa população de 10 milhões, a quase 8%. O mais grave é que estas pessoas que saíram são jovens e, 65% deles, são formados ou licenciados. Estamos a perder os melhores que temos cá; é muito mau. O que também é grave é a falta de investimento. O investimento privado está praticamente um deserto, há pouco investimento estrangeiro porque há falta de confiança, e o investimento público, de acordo com os números recentemente publicados, é dos mais baixos da Europa. Portanto, quando se diz que o défice orçamental está controlado, é porque não há investimento e muitas faturas por pagar (indústria farmacêutica, por exemplo). Sem dúvida que a situação é preocupante.

O que espera do futuro de Portugal?

Portugal continuará a ser Portugal – neste momento, estou muito preocupado, pelas razões que enunciei, mas sou otimista a longo prazo. No entanto, esse otimismo depende de nós. Dentro de alguns meses, se não houver problemas de última hora, Portugal vai receber uma área atlântica gigantesca, com o alargamento da Zona Económica Exclusiva, que corresponde a 40 vezes o tamanho de Portugal. Ora, receber esta área de mar, que tem muita riqueza, tem um grande potencial para Portugal. É pena é haver iluminados que recusam pesquisa de petróleo aqui na costa e também no Atlântico, com a argumentação de que o Atlântico é “muito fundo”. No Brasil as foragens petrolíferas estão a mais de 6000 metros! Nós precisamos é de ter meios para desenvolver. O nosso mar é um ativo fabuloso! Temos de defendê-lo e precisamos de uma Marinha com capacidade para tal. Temos de ter uma estratégia e precisamos de ir buscar parceiros que nos permitam desenvolver o seu potencial. Uma das razões do meu otimismo quanto ao nosso futuro é o próprio português. O “tuga” que está pelo mundo inteiro, que trabalha, que é respeitado e admirado lá fora. Nós temos um capital humano que é extraordinário, só que não está a ser bem orientado. Nos últimos anos, a orientação tem sido um desastre, e o “tuga” vai para fora, mas é possível que o cenário mude. Se tivermos uma gestão nacional boa, como temos um potencial do melhor, não há razão para continuarmos na cauda da Europa.

Tocou no assunto do mar, e isso faz-nos lembrar que é também um notável atleta! Chegou a ir aos Jogos Olímpicos…

Eu fui selecionado três vezes para ir aos Jogos Olímpicos, que são, para qualquer atleta, um momento inolvidável. Infelizmente, os resultados das minhas participações não foram os melhores, não correu bem. Temos vários troféus, desde Campeão do Mundo, Campeão da Europa, Campeão Ibérico, Campeão de Portugal… Mas os Jogos Olímpicos não correram totalmente bem. Mas foram experiências inesquecíveis.

Acha que o Desporto pode ser utilizado para desenvolver a economia

Com certeza! Dou um exemplo: quando me candidatei para trazer a America’s Cup para Portugal, em 2003, estimava-se naquela altura que o retorno seria da ordem de 1,5 milhões de euros. Por isso, não tenho dúvida de que os grandes eventos tenham retorno. É preciso é que tudo seja bem gerido. O caso do Euro 2004 é paradigmático – precisávamos de construir seis estádios, e nós, à boa maneira portuguesa, fizemos 10. Desses 10, há quatro que estão sem uso. Mas não é um problema unicamente português; os brasileiros gastaram 600 milhões de dólares a recondicionar o Maracanã, que hoje está abandonado. Se for bem coordenado, o Desporto pode ajudar a desenvolver a economia e atraindo turistas e investidores.

 

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