Inês Pedrosa – O Monte dos Vendavais

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Inês Pedrosa é uma daquelas pessoas que sempre quiseram ser escritoras, e por isso mesmo se deixou fascinar pelo mundo do Jornalismo Escrito desde muito nova. Aos dezanove anos já era estagiária do semanário O Jornal, de onde não demorou muito, pelo conjunto dos seus interesses e pela qualidade da sua escrita, a passar para o JL, então também semanário. Mais tarde vamos encontrá-la n’O Independente, e por fim a escrever semanalmente as primeiras crónicas feministas do nosso jornalismo generalista, apropriadamente intituladas “CRÓNICA FEMININA”. Depois de seis anos na direcção da Casa Fernando Pessoa, dedicou-se agora ao seu trabalho ainda menos conhecido: enquanto participa no debate semanal “O ÚLTIMO APAGA A LUZ”, criou a pequena editora independente “SIBILA”, uma homenagem a Agustina Bessa-Luís dedicada exclusivamente ao romance feminino. É por enquanto uma editora minúscula, mas vale a pena ler qualquer um dos seus oito títulos: já não há muito em Portugal quem se dedique exclusivamente à literatura de grande qualidade de forma independente, e muito menos com pouco dinheiro e nenhum acordo de troca de contratos ou de influências. Num país de literatura absolutamente estagnada, há muito que o que Inês procura oferecer-nos é, literalmente,
“O MONTE DOS VENDAVAIS”.

Sempre quiseste ser jornalista, ou ires lá parar foi um acaso?

Eu sempre quis ser escritora, mas sabia que escrever romances, em princípio, não bastaria para sobreviver. E então, como apareceu entretanto o curso de Ciências da Comunicação na Universidade Nova, entusiasmei-me com a ideia do jornalismo escrito, pensando que me daria mundo e traquejo de escrita para me tornar uma melhor escritora.

Lembro-me perfeitamente de ti quando entraste para O Jornal, onde eu trabalhava, sobretudo porque se metia pelos olhos dentro que a tua qualidade, como jornalista e como escritora, era absolutamente acima da média. Mas como foste é que transitaste do Jornal para o JL, um veiculo de cultura de critérios muito mais exigentes?

Fui parar a O JORNAL batendo à respectiva porta e oferecendo-me para um estágio, aos 19 anos, quando ainda estava na Universidade, porque o meu pai me azucrinava o juízo, bradando que eu ficaria desempregada. Deram-me uma reportagem-teste e aceitaram-me, para um estágio gratuito de três meses, que depois se prolongou por um ano. Então, o António Mega Ferreira, chefe de redacção do JL, ia tornar-se semanal e precisava de ter pelo menos um jornalista, chamou-me (creio que por sugestão da jornalista que já se tinha interessado muito por mim n’O Jornal, a Clara Pinto Correia). A posição incluía um lugar pago, embora parcamente pago, porque já nessa época se entendia que as pessoas da Cultura vivem do sopro da inspiração. Mas enfim, nenhum jornalista que não fosse dono de coisa nenhuma recebia assim tanto como isso.

Qual foi o trabalho que gostaste mais de fazer até hoje, e o sítio ou período onde te sentiste mais feliz – e porquê?

O trabalho de que verdadeiramente gosto é o de escrever romances; não há felicidade comparável à dessa maratona intensa e intensamente solitária. Mas, na minha vida profissional extra-literária, o trabalho de que mais me orgulho foi o que realizei na Casa Fernando Pessoa, durante seis anos, com pouquíssimos meios e com a comovente colaboração de muita e variada gente, do Caetano Veloso e da Maria Bethânia, que se apresentaram gratuitamente na Casa, à de muitos escritores e artistas, e à da população lisboeta anónima que participou em inúmeras maratonas de leitura e em recitais. Criámos o Clube Pequenas Pessoas, para as crianças, e desenvolvemos um trabalho intenso com as escolas, em particular as dos bairros mais desfavorecidos, a partir de um livrinho que escrevi sobre a vida de Pessoa, acompanhado de poemas e jogos de palavras, que estava disponível para descarregar na net, para poder ser utilizado em qualquer escola. Inesquecível o êxtase dos miúdos ao descobrirem a poesia, os heterónimos, as múltiplas possibilidades das palavras.Não há maior degratificação do que a de sentirmos que prestámos um verdadeiro serviço público.
Por outro lado, os sítios onde me senti mais feliz foram o JL e O Independente. Éramos poucos, e muito novos, e queríamos mudar o jornalismo e o mundo, por esta ordem.

Alguma vez mudaste coisas importantes na tua vida por amor? E por causa de ter filhos?

Não. Quando me aceitaram n’O Jornal, o estudante de Belas Artes que eu namorava há dois anos disse-me que, se eu começasse a trabalhar, teria de acabar o namoro, porque eu passaria a ser uma jornalista e ele era ainda apenas um estudante. Esse desgosto foi uma lição de vida: nunca aceitar um amor que não nos respeita nem aceita a nossa realização pessoal. A educação é um exemplo, pelo que nunca deixei de fazer nada por causa da minha filha, de modo a ensinar-lhe o valor do trabalho, da independência, e de um projecto de vida autónomo.

Quantos anos tinhas quando te aventuraste a escrever um romance pela primeira vez? Lembras-te de como é que te sentiste nessa altura – e quanto dessa sensação ainda persiste?

Tinha doze anos quando escrevi o meu primeiro, e péssimo, romance. Escrevi outro aos quinze, e depois muitos contos e poemas. Os estudos e os jornalismo ocuparam-me completamente entre os 19 e os 27 anos; começara a escrever um romance quando Nelson de Matos, então editor da Dom Quixote, me telefonou, dizendo: «Quando acabar o seu romance, eu quero publicá-lo». Perguntei-lhe, interdita, como é que sabia ele que eu estava a escrever um romance; e ele respondeu-me que se notava pelo novo tom dos meus textos jornalísticos. Então disciplinei-me, cortei todas as saídas e fins de semana, e concluí em um ano e meio A Instrução dos Amantes, que viria a ser o meu primeiro romance publicado – graças ao estímulo do Nelson, a quem ficarei para sempre grata por essa profissão de fé na minha escrita.
A sensação de exaltação e medo que tive dessa vez mantém-se, sim. Como sabes, um romance é uma descida aos nossos abismos mais profundos e uma ascensão a um conhecimento que ignorávamos ter, até começarmos a escrever. Exige uma inocência, uma espécie de candura face à vida – mesmo, ou sobretudo, quando o que temos para narrar é terrível. Cada novo romance é o recomeço de um universo – o que nos impede de envelhecer e envilecer.

Depois de uma longa ausência nos EU, cheguei a Portugal e descobri, numa página inteira do Expresso, a tua Crónica Feminina. Foi assim que fiquei a saber, ou a imaginar, que agora eras a feminista de proa da nossa geração — ou não é em assim que te vês? Como se deu em ti essa maturação para o feminismo? E, a partir daqui, que papel constante sentes que isso desempenha em ti e contigo – no sentido em que a Shinead O’Connor uma vez disse, por exemplo “happily, the first word my daughter ever said was NO!”

Agradeço-te a distinção, mas não sei se sou a feminista de proa ou de popa – nem me interessa; o que me interessa é dar a minha contribuição para um mundo mais justo. A minha maturação feminista deu-se através de um terramoto chamado “Novas Cartas Portuguesas» que li aos 12 anos, de fio a pavio, porque estava escondido numa gaveta dos meus pais. Transfigurou-me de corpo e alma enquanto menina, mulher e escritora, não só pelo que naquele livro me era revelado, mas também pelo modo como me era revelado. Eu não sabia que a língua portuguesa podia ter aquela plasticidade, nem aquela potência erótica e letal. Tenho-o relido muitas vezes, e sei que este livro é um monumento literário da dimensão do Livro do Desassossego, ao qual ainda não foi feita justiça – porque é de mulheres, e trata da discriminação das mulheres, pois. Depois, fui lendo muita coisa que me formou e impressionou . Por exemplo, O Segundo Sexo da Simone de Beauvoir, The Feminine Mistique da Betty Friedan, A Mulher Eunuco da Germaine Greer… E, acima de tudo, fui observando a diferença de expectativas, exigências e tratamentos atribuídos a homens e mulheres, só por serem homens ou mulheres.Diferença que persiste, para lá da mudança das leis, ou que até se agrava precisamente por causa da evolução legislativa: as mentalidades resistem muitíssimo à mudança. Uma dessas crónicas que escrevi durante muitos anos no Expresso levou alguns leitores a sugerirem-me que lançasse um abaixo-assinado para conseguir um indulto para uma enfermeira condenada a oito anos de prisão por prática de aborto – e tivemos a alegria de conseguir essa libertação, através desse abaixo-assinado de perto de três mil assinaturas, em 2003. Anos mais tarde, através da luta de muitas mulheres e homens – uma luta em que tive a felicidade de participar activamente – conseguiu-se finalmente legalizar a interrupção voluntária da gravidez. Mas ainda há muito caminho a fazer até à efectiva igualdade. Não quero que a minha filha tenha de bater o pé para conseguir um salário igual ao dos homens que trabalham ao seu lado, como eu tantas vezes tive de fazer, nem que explicar que não está disposta a fazer de cheerleader ou de mascote em embaixadas de celebração do génio masculino. Já chega desse desgaste.

Tens recebido tratamentos malevolentes por causa do que é geralmente entendido como o teu feminismo?
Claro: faz parte do pacote. Tenho recebido tratamentos malevolentes, tenho sido insultada de perto e de longe, fui perseguida quanto ao melhor do meu trabalho ( na Casa Fernando Pessoa, pois), e muitas vezes desconsiderada enquanto escritora. Mesmo assim, não é nada que se compare ao que passou com a Maria Teresa Horta, que chegou a ser fisicamente agredida na rua – agora os detractores do feminismo já não se atrevem a tanto. Não tenho dúvidas de que o combate feminista tirou à Teresa muitos prémios literários, e é obviamente uma vergonha para o júri que não lhe tenham dado ainda o Prémio Camões – mas os seus livros continuarão aí para fascinar gerações e gerações de amantes de poesia. Acresce que a ira é uma musa valente, e a aprendizagem da pulhice é muito útil a quem escreve romances, pelo que não me posso queixar. Além disso, tenho muitos e bons leitores, estou a acabar o doutoramento sobre Milan Kundera, acabei de ter um romance publicado nos Estados Unidos pela Amazon Crossing que vai publicar outro romance meu já em Junho, e publicarei em Fevereiro um novo romance, “O Processo Violeta”, na Porto Editora. As sacanices irritam-me temporariamente, mas depois transformam-se em gás adicional para os meus projectos

Em que papel é que te vês, ou de que de que é que te sentes incumbida, no presente programa de debate e comentário na RTP3, O ÚLTIMO APAGA A LUZ? E que reacções é que tens dos espectadores anónimos?

Gosto muito de fazer o programa, porque gosto de televisão, de política e de debater ideias. Não represento ali nenhum papel senão o de alguém que pensa em voz alta, e se possível com algum humor, sobre o mundo contemporâneo – no fundo, é um prolongamento do meu trabalho de romancista.Acho que funcionamos bem em equipa, entendemo-nos, com as nossas diferenças, e temos um ponto em comum que é muito importante: somos todos pessoas que pensam pela sua cabeça e que dizem livremente o que pensam, sem agendas de espécie alguma. E é o único programa de debate televisivo semanal com total paridade de género.Os espectadores reagem cada vez mais assiduamente e com crescente simpatia, o que significa que a audiência do programa está a subir. Também recebemos críticas contundentes por causa desta ou daquela opinião, claro – o que me parece muito saudável, porque é sinal de que não vivemos numa sociedade monolítica.

E agora uma pergunta daquelas mesmo de inspirar felicidade a qualquer um: depois de morreres,
queres que as pessoas se lembrem sobretudo de que
dádiva tua ao mundo?
Dos livros: que os leiam, que gostem deles, que se sintam acompanhadas por eles. E, claro, gostaria que as pessoas mais próximas recordassem o amor que partilhámos. Sei que recordarão, como eu me recordo do amor que recebi das muitas pessoas que amei e já não estão
neste mundo, mas que continuam a ajudar-me a viver

E tu, enquanto ainda vamos a tempo: o que é que gostavas, fundamentalmente, de dizer a TEU respeito antes de morreres?

Não me ocorre nada, a não ser que estou grata à vida, que me deu uma filha maravilhosa, um amor absoluto quando eu já não o esperava, e um grupo de amigos luminosos e firmes como faróis. Ah, sim. Também é importante dizer que me sinto infinitamente mais livre agora do que aos vinte anos. E que o aperfeiçoamento da liberdade é o que dá luz à existência.
Então vamos lá ao que deve ser o mais espantoso aperfeiçoamento da tua Editora: toda a sua coragem que te levou de mergulhar assim, sem defesas, naquele Shark Tank dos grandes conglomerados multinacionais de editoras interessadas em best-sellers e pouco mais.

Como é que tiveste a ideia, e qual é a coisa mais importante que gostarias de deixar dito sobre ela?

Bem, a ideia é muito antiga. Já a tinha na minha juventude. Sempre gostei de editar textos, de fazer títulos, de escolher imagens, da parte gráfica da edição. Quando, há seis anos, conheci o Gilson, que é designer e um leitor voraz, começámos imediatamente a falar de criar uma editora; há um ano, decidimos que, dado que estamos os dois no meio da nossa década dos cinquenta, se íamos realmente fazer alguma coisa, então agora ou nunca. Escolhemos o nome de “Sibila” em homenagem à minha muito querida Agustina Bessa-Luís e à capacidade profética e prática das mulheres, historicamente arredadas dessa História, que, no entanto, fisicamente depende delas. Começámos precisamente por publicar uma interessantíssima escritora libanesa ainda não publicada em Portugal – a Joumana Haddad – e depois por recuperar vozes esquecidas de mulheres escritoras. Pretendemos também vir a publicar ensaio, aí já de autores de ambos os sexos, porque ainda se publica muito pouco ensaio em Portugal. Iremos avançando solida e lentamente, porque o negócio da edição é, também ele, lento. A lentidão parecenos um valor a recuperar.

Diz-me quais consideras os teus três já livros já publicados mais indicados para oferecer como presente a alguém de quem nós gostamos – e porquê.

Antes de mais nada, o “Cartas Portuguesas”, uma edição que junta a tradução de Filinto Elísio das famosas cartas de Mariana Alcoforado a uma colectânea de «cartas de uma ilustre desconhecida», de 1821, que Nuno Júdice, organizador e prefaciador desta edição, suspeita terem sido escritas por Almeida Garrett. Duas vibrantes histórias de amor contadas através de cartas sumptuosas. Depois há o “Cinzas”, um poderosíssimo romance da esquecida Prémio Nobel italiana Grazia Deledda, numa edição que contém um CD do compositor e cantor Mariano Deidda, que musicou textos desta escritora genial. Finalmente, eu seleccionaria o “Mundo Novo”, o último romance de Ana de Castro Osório, reconhecida como uma proeminente feminista da primeira República e editora de Camilo Pessanha, que merece também ser reconhecida como a talentosa e arguta romancista que foi. O mundo novo a que se refere este romance muito autobiográfico é o Brasil, mas é também um mundo em que as mulheres terão o mesmo direito à autonomia e à realização pessoal do que os homens. Creio que qualquer um destes livros será um bom presente que testemunhe a nossa afeição por alguém, porque todos eles aprofundam o nosso conhecimento da  natureza humana, e das possibilidades da palavra.

Texto Clara Pinto Correia
Fotos Alfredo Cunha e Adriana Delgado Martin

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