Michelle Obama

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MODA, EXERCÍCIO, AMOR, MATERNIDADE, AUTOBIOGRAFIA, E PROVAVELMENTE A PRÓXIMA PRESIDÊNCIA

 

Nos sites de venda de lugares para o tour que Michelle Obama tem andado a fazer em promoção da sua recém-lançada autobiografia BECOMING, a foto da grande advogada saída das altas linhas de montagem da Universidade Pública de Chicago que ninguém no mundo conhecia mas que depois se tornou famosa de um dia para o outro enquanto a primeira Primeira-Dama preta dos Estados Unidos é mesmo, completamente, pop-star: o seu fundo azul a convocar o sonho de um céu optimista, o seu cabelo de marca que é muito comprido e todo esticado, o seu sorriso de marca que é sempre rasgado e de olhos nos olhos, bem, e vá lá… é que, depois, ainda cilindra completamente a audiência com aquele truque da roupa toda branca… com o ombro esquerdo todo de fora! Para quem não sabe, está de quilómetros e quilómetros e quilómetros de pele bem tonificada e bem esticada à vista, obviamente sem plásticas e antes com bons cremes e melhores ginásios, é mesmo-mesmo-mesmo marca Michelle. Muito respeitinho por esta senhora. O livro é capaz de ser só um pretexto.

Eu estava nos Estados Unidos há quatro anos, quando Michelle Obama, à época ainda Primeira-Dama, fez cinquenta anos. Foi em 2014 e nunca mais volta a acontecer nada assim. A quantidade de capas de revista que aquela fantástica supermodelo fez, Santo Deus, não dá para acreditar. E não foi propriamente uma feira de vaidades. Havia boas razões para tudo isto. Michelle Obama criou uma causa muito nobre, chamada LET’S MOVE. Destina-se a pôr os alunos americanos a comer alimentos verdadeiros e saudáveis, a fazer exercício, e a desta forma combater o papão assustador da obesidade nas crianças e nos jovens. Nessa altura, ela própria fazia questão de aparecer nas escolas públicas, nas zonas mais pobres de todas. Por falta de dinheiro e de educação, é sempre aqui se acumulam mais coach-potatoes dependentes da junk food, da Coca-Cola, do sofá lá de casa, e da televisão, para plantar hortas nas traseiras das escolas e demonstrar pessoalmente que fácil que é ter acesso aos vegetais de que o nosso organismo tanto carece, e para ensinar aos alunos rotinas simples de quinze minutos de exercício e drenagem por dia, baseados só na ginástica rítmica, na dança, e no hábito de beber sempre um litro e meio de água da torneira, e sempre pela mesma garrafa.
Para ser digna de representar este programa, antes de fazer cinquenta anos a própria Michelle anunciou publicamente que ia perder dez quilos para estar mais “ágil e flexível” na grande data. Foi quando descobriu a adrenalina dos ginásios e do auto-controlo das abstinências.
No fim daquilo tudo esticou o cabelo e cortou a franja, encomendou aos seus cinco estilistas de referência um vestuário mais leve e voador , e estava linda, linda, linda. Na capa da PEOPLE MAGAZINE aparecia numa foto de lado, com este mesmo sorriso luminoso de olhos brilhantes e seguros de si com que agora anuncia o tour do livro, dentro de um top de alças que lhe permitia mostrar bem os músculos do braço – e quer dizer, eram uns belos músculos, belissimamente definidos.
O meu ex é um democrata fumegante, um admirador incondicional do Obama, e ainda mais da Michelle; além de que tem um sentido de humor de uma crueldade maravilhosa. Chamei-lhe a atenção para aquela foto e ele disse logo: “A esta hora os Republicanos e os broncos do Bible Belt já deram em doidos, não é?… A Primeira-Dama dos Estados Unidos na capa da PEOPLE a mostrar os seus músculos… os seus músculos pretos!… ah, valeu a pena viver só para ver isto!” Agora, há fotos e fotos, assim como há capas de revista e há capas de revista. Michelle Obama podia ser só muito bonita, muito simpática, e defender uma grande causa numa super-poitência onde trinta por cento da população é obesa e descamba para a obesidade logo na infância.
Ninguém lhe pedia que fosse também extraordinariamente inteligente e uma grande profissional, mas nota-se. Naquela altura, notou-se muito. É que há muita notoriedade, que é uma coisa; e depois há imenso prestígio, que é outra coisa completamente diferente. Não basta dizer que as Primeiras-Damas americanas não costumam ser pretas, e não costumam aparecer em grande forma na capa da PEOPLE MAGAZINE quando fazem cinquenta anos.

Se a seguir dissermos que quando fez cinquenta anos a Michelle Obama fez a capa da VOGUE… isto sim, isto é um arrazo. Toda a gente sabe que a capa da VOGUE é outra conversa. Nesta capa é que não costumam mesmo aparecer pretas, a menos que sejam a Naomi Campbell, a Tyra Banks, ou a minha sobrinha Inês no dia em que quiser ser top-model. Estava linda, com um vestido comprido preto coleante e sem ombros do Atelier Versace, encostada às colunas de mármore da Casa Branca, naquelas fotos muito especiais que só a Anne Leibovitz é que sabe tirar. Não se sabia, manteve-se o segredo até à última hora, toda a gente foi apanhada de surpresa. E mais, que grande foto que ela fez. Pode ser uma advogada brilhante e estar a inspirar meio mundo no papel de Primeira-Dama, que não é por isso que deixa de fazer poses dignas de uma modelo profissional. This is still America.
Nesse mesmo aniversário, ao serviço dessa mesma causa, já depois das capas da PEOPLE e da VOGUE, a Michelle foi várias vezes à televisão. E aí, mesmo à laia de golpe de misericórdia destinado a mostrar ao público as vantagens de qualquer um se pôr a mexer e perder peso para se sentir bem, pulverizou logo o seu próprio record.

MAS A AMÉRICA TAMBÉM ESTÁ CHEIA
DE ORGULHO NAS COISAS BOAS E BEM
FEITAS, INDEPENDENTEMENTE DA
POLÍTICA E DA COR DA PELE.

Esta parte para mim é particularmente interessante, porque mostra claramente o que a América tem de melhor. Com certeza, está cheia de “inteligentes” que em oito anos não conseguiram cansar-se de dizer mal das políticas do Obama nem refazer-se da ideia de terem um presidente preto, a quem houve muita gente que não deixou de chamar macaco, ou, no mínimo, perigoso terrorista islâmico encapotado. A América está cheia das pessoas que votaram no Trump. Mas a América também está cheia de orgulho nas coisas boas e bem feitas, independentemente da política e da cor da pele. E é mesmo um país muito jovem, com uma capacidade experimental que a gente nem sabe se esta velha Europa alguma vez teve, com tanta monarquia e tanta guerra vindas tão lá do fundo dos tempos.
Acontece que as pessoas em Portugal quase que me comeram viva por causa de uma brincadeira que eu fiz uma vez na RTP2, e eu só tinha quarenta anos, e posso ser um bocado preta mas nunca fui nenhuma Primeira-Dama. Era apenas, na altura, a apresentadora de um programa de debate de grande nível intelectual, chamado TRAVESSA DO COTOVELO. Era tão sério, mas tão sério, que até se podia beber e fumar no estúdio, que imitava um bar onde nós estávamos a ter uma tertúlia, discutindo vários temas à vez. Cada um dos apresentadores fazia uma série de doze temas, e como a nossa sociedade estava a ficar cada vez mais abandalhada eu decidi que o meu último seria sobre a Queda do Império Romano. No fim, e isto era um segredo só entre mim e o pianista, eu citava o grande Will Durant, quando ele diz, exactamente sobre como foram possíveis as invasões bárbaras, “todas as grandes nações nascem estoicas e morrem epicuristas”. E acrescentava: “Querem ver o nosso futuro, se nós não fizermos nada?” Era a deixa. O pianista começava a tocar o PIMBA, PIMBA, e eu começava a dançar. Ou seja, abandalhava-se tudo.
O que eu levei na cabeça, por ter dançado na televisão em sinal de protesto.
Os anos subsequentes deram-me toda a razão, mas ainda hoje as pessoas que se lembram dessa noite só dizem “ela passou-se, passou-se.”
Isto é Portugal.
Entretanto, anos mais tarde, na América, a Primeira-Dama, que é preta e musculosa, e que fica linda em poses para as revistas, cria um programa de exercício para as escolas chamado, passa a vida a dar beijos ao marido e a dançar com ele, e como acabou de fazer cinquenta anos vai a uma data de programas de televisão.
E é então que tem todos os direitos que eu nunca tive nem terei.
Logo no primeiro late night em que apareceu, às tantas o apresentador fez-lhe um certo convite e ela disse logo que sim, com certeza. Começou de lá a bombar um bruto funk de dança. A Primeira-Dama levantou-se e pôs-se a dançar. É uma dançarina de cinco estrelas. E aquilo podia estar tudo previamente combinado que não foi por isso que fez qualquer diferença: nesse programa, e em todos os programas em que ela dançou depois, muitas vezes e em muitos estilos, os apresentadores, e os outros convidados que lá estivessem, ficavam todos de queixo caído, e não se cansavam de pedir mais. E o público fazia o mesmo. Era incrível. Uma Primeira-Dama preta, a dançar à preto, numa onda tão boa, com uma energia tão grande e tão salutar. This would be the day that I die.
O meu ex, por acaso, era das pessoas que me tinha dado na cabeça por causa de eu ter dançado UMA VEZ na televisão em sinal de protesto, no máximo durante uns cinco miseráveis minutos. Um dos argumentos dele, igual ao de toda a gente, era que causava descrédito uma Professora Doutora pôr-se assim a dançar sem mais nem menos. E eu então só lhe dizia, “Dick, isto ou há moralidade ou comem todos, a Michelle Obama é a Primeira-Dama do País Mais Poderoso do Mundo e ultimamente não faz mais nada senão pôr-se a dançar na televisão sem mais nem menos, mas como é que é, no caso dela já não causa descrédito?” Se ele alguma vez me respondeu, ou algum dos Portugueses que acham que eu me passei, foi com qualquer coisa como “mas a Michelle é uma dançarina maravilhosa, e dança para combater a obesidade dos Americanos”. Ok, está bem. Remeto-me à minha insignificância. Claro que em termos de dança nunca chegarei aos calcanhares da Michelle.
E também nunca fiz nenhuma capa da VOGUE.

MAS A MICHELLE É UMADANÇARINA MARAVILHOSA, E DANÇA PARA COMBATER A OBESIDADE DOS AMERICANOS

Toda a gente sabe que lidar com os media não é fácil, e toda a gente subentende que a televisão é um meio particularmente cruel. Mas com esta Primeira-Dama não havia crueldade possível. Antes de mais nada, aos cinquenta anos a Michelle aparecia sempre giríssima na televisão, naquela base natural e simples, flexível como um junco e sorridente como uma Grande Mãe. Além disso, não me lembro de ela alguma vez ter ficado mal em alguma imagem ou alguma fotografia. Por essa altura, já lá iam mais de sete anos de Mundo Obama, o que quer dizer que até a Fox News, com todos aqueles comentadores completamente republicanos e todas aquelas apresentadoras loiras super-reaccionárias, tinha ganho um grande conhecimento de causa em relação à advogada de Chicago. E, de cada vez que o nome dela vinha à baila em algum debate ou noticiário, era sempre tiro e queda: uma pessoa dizia “Michelle” e outra pessoa atalhava“Oh, c’mon, Michelle’s a sweetheart!”
E foi assim, com toda aquela animação dos cinquenta anos e das danças do LET’S MOVE que começaram a perguntar-lhe o que é que ambicionava fazer quando o segundo mandato do marido chegasse ao fim, e ela começou a rir muito e a responder: “Watch out DC, here I come!”. Na altura pode ter sido só uma piada, mas agora há imensos democratas interessados em transformar a piada numa realidade. Aliás, não falta quem diga que esta autobiografia, acompanhada deste enorme book tour, apareceu agora já a preparar sabiamente o terreno para as próximas eleições. Hillary Clinton nunca conseguiu convencer realmente ninguém porque é a antítese da simpatia, e ainda por cima toda a gente sabia que ela tinha por trás o grande capital de Wall Street e da Indústria Farmacêutica, pelo que não podia estar mais feita com o Sistema. E, em grande medida, foi por já não tolerarem mais o Sistema que as pessoas votaram em Donald Trump.
Michelle tem todos os trunfos que Hillary não tinha. Além disso, neste momento o eleitorado Americano já comporta mais pretos que brancos.

MICHELLE TEM TODOS
OS TRUNFOS QUE
HILLARY NÃO TINHA.

E, ainda por cima…
Eh pá. Uma Mulher Preta na Presidência! Querem melhor? Não, estão a ver? O que os estrangeiros dizem, isso é tudo mentira. É tudo inveja. Neste País abençoado por Deus ninguém discrimina contra ninguém. Run, Michelle, run.
E depois, durante oito anos, houve ali um toque especial que fez mesmo muito bem à psique americana: foi o amor, carinho, e dedicação evidentes daqueles dois um pelo outro. Michelle e Barak eram o alto contraste de Trump e Melania. Além de terem ambos estudado muito e serem ambos muito inteligentes, tinham ambos um grande sentido de humor, eram ambos grandes pais para as suas filhas, e estiveram ambos sempre, sempre, sempre, visivelmente apaixonados, ao longo de oito anos extraordinariamente difíceis. Foi um dos comentários que os jornalistas não conseguiam deixar de fazer a propósito da festa dos 50 anos da Michelle, onde compareceram figuraças como a Beyoncé, o Paul MacCartney, ou o Samuel Jackson, mas não deixaram entrar ninguém dos media: as redes sociais ficaram cheias de posts de Michelle e Barack a dançar, e toda a comunicação social dizia, “oh this is so heart-warming, those two are always so much in love!”

E o amor é mesmo uma coisa muito bonita. Dá-nos asas.
Logo na primeira Grande Gala em que eles apareceram juntos depois das primeiras eleições, ainda o Presidente não tinha um único cabelo branco, Michelle trazia um vestido comprido branco desenhado pelo estilista de Taiwan Jason Wo. Barak estava de smoking. E foi só começarem a dançar para se perceber que aqueles dois já tinham dançado juntos milhões de vezes na vida. Sorriam um para o outro numa enorme felicidade, e era um coisa linda de se ver. Depois, de repente, o Presidente não aguentou mais. Parou de dançar, puxou a sua mulher ainda mais contra si, apontou para ela todo feliz, virou-se para todas as outras pessoas da pista de dança, e perguntou: “Isn’t she beautiful?”
“Beautiful” talvez seja pouco, se vamos usar um único adjectivo para caracterizar Michelle Obama.
É mais que Michelle Obama é absolutamente “outstanding”.

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