Livraria-Bar Menina e Moça – A Utopia da Rua Cor de Rosa

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Conheci a Cristina Ovídio quando ela era Coordenadora Editorial da Oficina do Livro, que estava prestes a publicar um romance meu pela primeira vez, o NO MEIO DO NOSSO CAMINHO. Era bastante mais nova do que eu, mas possuía uma erudição literária que raramente se encontra em alguém. Além disso era extremamente elegante, vestia-se uma maneira extremamente criativa – e, por trás de todos aqueles caracóis de um louro veneziano raro completados por um tereré de cabedal atrás, era uma miúda linda. O trabalho em conjunto transformou-se rapidamente em amizade, assim como cada livro se tornou rapidamente um debate cada vez mais promissor. Depois destes primeiros passos, estive uns anos fora de circulação. Lembro-me como se fosse ontem de quando a re-encontrei no metro: no meio de toda a confusão da hora de ponta, ia sentada com um ebook no colo, a ler com tanta intensidade que parecia pendurada sobre ele como uma águia no cimo de uma árvore a examinar atentamente a sua presa. A partir daí trabalhámos juntas a escrever, e devo-lhe a coragem de publicar o meu romance sobe os GE de Moçambique NÃO PODEMOS VER O VENTO, e, com um cuidado e uma sensibilidade absolutamente excepcionais, a minha biografia do Manuel Jerónimo UM HOMEM TEM DE LUTAR. Por essa altura já ela congeminava uma qualquer forma de mudar de vida, e às vezes, se houvesse tempo, íamos falando de fragmentos desses seus novos planos. Até que, dois meses depois de regressar a Lisboa, fui descobrir os seus novos domínios: o espaço de sonho MENINA E MOÇA, uma livraria-bar mesmo no fim da Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré. Foi aqui, com a casa cheia, que tivémos a nossa conversa.

Sempre foi isto que quiseste fazer?
Eu fiz o curso de Letras porque só queria era, de uma qualquer forma, ter livros a toda a minha volta. Depois de me licenciar comecei por fazer um estágio de Jornalismo de Investigação na SIC mas não gostei, não gostei nada daquele ambiente. Passei a ser consultora literária na RTP para o programa QUEM CONTA UM CONTO, e então, ao fim de uns tempos, e para minha grande surpresa, convidaram-me para professora de Português no Colégio Ramalhão.

Mas que reviravolta.
Foi uma reviravolta muito boa. Dar aulas é maravilhoso, e eu fiz com as minhas alunas toda a espécie de coisas animadas para elas começarem a gostar mais de livros.
E depois é maravilhoso ver as alunas voarem, exactamente como as águias voam. Foram anos magníficos. Depois, estava eu grávida da minha segunda filha, apareceu a editora Clube do Autor. Começaram por convidar-me para ser revidora, incluindo de revisão científica. A seguir passei a Coordenadora Editorial, que inicialmente fiz até ao fim do meu último 12º ano no Ramalhão. E sabes, é bonito… não quiseram terminar o meu contrato. Deram-me antes licença sem vencimento.

O TRABALHO EM CONJUNTO TRANSFORMOU-SE RAPIDAMENTE EM AMIZADE, ASSIM COMO CADA LIVRO SE TORNOU RAPIDAMENTE UM DEBATE CADA VEZ MAIS PROMISSOR.

E depois? Ser professora no Ramalhão fazia-te feliz. A seguir o que é que te fez feliz no Clube do Autor?
Gosto de trabalhar com o autor, e fez-me feliz estar bem preparada para esse trabalho. Gosto de poder dar sugestões que façam o livro melhor. No meu caso, mais especificamente, sentia-me especialmente bem se conseguisse ajudar o autor a ter boas ideas no que respeita a ver-se livre de desnecessidades e de gorduras.

Hey! Não me lembro de me chateares uma única vez com as minhas gorduras!
Está bem, mas tu não tens gorduras.

Vindo de ti, isso é mesmo bom de ouvir.
Então, mas é verdade. Se tivesses gorduras, eu dava logo por elas. A edição é uma espécie de maladie, às tantas já nem consegues distingui-la da tua própria vida. E isso é incrivelmente bom porque te remete para um verdadeiro estado de Utopia. Se não houver Utopia, a vida não se aguenta. Entusiasmei-me tanto com o meu trabalho no Clube do Autor que acabei por criar um um verdadeiro Comité Editorial para a triagem dos livros, para fazermos a organização de um plano editorial inteiro em cada ano.

Bem, mas o Clube do Autor era uma editora comercial especialmente virada para os best-sellers, certo?
E não publicou seis livros teus, quatro deles romances originais e um deles uma biografia de um proletário, extremamente difícil de vender, sabendo perfeitamente, desde o primeiro dia, que tu não fazes minimamente o género autor de best-sellers? Os best-sellers permitiam era que a editora pudesse sobreviver sem problemas financeiros – e passavam pelo nosso Comite Editorial, tão seriamente como todos os outros livros. Para lá desse aspecto, conseguimos ser francamente inovadores no que diz respeito a escolher revisores, escolher tradutores, escolher o texto da capa, até desenhar a própria capa. E tudo isto me fazia feliz, mas eu também sempre vivi com o sonho de ter um espaço só meu desde que me meti na edição. Por isso, quando me senti pronta, comecei à procura de um bom sítio para concretizar esse sonho.

GOSTO DE TRABALHAR COM O AUTOR, E FEZ-ME FELIZ ESTAR BEM PREPARADA PARA ESSE TRABALHO.

“TUDO, DE TODAS AS MANEIRAS”
O encanto deste lugar que eu inventei é não ser nem um bar, nem uma livraria, nem sequer uma mistura inactiva e inespecífica de ambas as coisas. Claro que as pessoas podem vir cá só beber uns copos ou comprar uns livros. Mas o que é diferente é poderem ter, também, acesso a destilações do melhor que estas duas faces artísticas podem oferecer-nos.
Repara.
No Menina e Moça temos um programa permanente com diferentes estilos garantidos a quem quiser cá vir. Às terças, brindamos as pessoas com música Swing; às quartas, fazemos uma tertúlia chamada o Rendez-Vous Menina e Moça; às quintas, quinzenalmente, oferecemos um programa de Jam Literature; e aos domingos temos uma verdadeira Jam Session de Jazz associada a apresentações de livros, de leituras de poemas, e de homenagens aos grandes escritores da nossa língua, como o David Mourao Ferreira, o Alexandre O’ Neill, o Cesario Verde, ou o Fernando Pessoa. Enfim, o Menina e Moça é uma história longa de desejo de evasão e de viagem. Claro que tudo isto só foi possível, desde o primeiro dia, com a ajuda sólida de quem conhece as fundações de uma casa. Quem se empenhou mais em ajudar-me foi o Henrique Vaz Pato. Como até o Adriano Moreira nos recorda, só a águia voa sozinha, para mim foi fundamental ter também o apoio de bons e antigos amigos. Devo dizer que a missão de Professora é, como sabes bem, das mais nobres da vida. A edição é uma paixão mas tenho uma alma de cigana. Gosto de rua e do Céu de Lisboa. Estar só entre quatro paredes, numa casa editorial, limitava a minha vontade de sentir tudo de todas as maneiras, como diria o Álvaro de Campos. Estar na rua é como a Poesia. É a minha maneira de ser livre.

É interessante teres-te sentido pronta para um plano assim tão arriscado em pleno mandato da Troika.
Precisei de imenso apoio, como é evidente. E o meu marido, o Henrique, que tem aqui dois restaurantes, funcionou sempre como o meu parceiro natural. Também fui à Câmara Municipal de Lisboa falar com a Catarina Vaz Pinto. E comecei a pensar em pessoas do meio literário que pudessem vir trabalhar comigo. Só a águia é que voa sozinha. Eu não. Então e voaste para aqui como? Tão bem situada, mesmo com a porta aberta para a animação nocturna da Rua Cor de Rosa, e ainda por cima mesmo ao lado do teu marido? Olha, há coisas, realmente. Onde estamos agora havia um restaurante incaracterístico chamado O CARDO. Às tantas fechou, e a única coisa que o senhorio para queria o trespasse era um conceito com ideias. Meti logo os papeis para segurar a loja. A preparação para a abertura coincidiu com a morte dos meus pais, uma daquelas coisas em que não adianta de nada estarmos preparados: é sempre, sempre, um terramoto. Mas não parei de trabalhar. Trouxe alguns dos livros deles para aqui, para me fazerem companhia. A ideia do MENINA E MOÇA é mesmo essa: juntar todos os prazeres num único espaço. Até as decorações, os postais, a mobília, foram desenhados à mão, e só existem aqui.

MAS O QUE É DIFERENTE É PODEREM TER, TAMBÉM, ACESSO A DESTILAÇÕES DO MELHOR QUE ESTAS DUAS FACES ARTÍSTICAS PODEM OFERECER-NOS.

E agora o que é que queres?
Continuar a crescer cada vez mais, para fazer as pessoas cada vez mais felizes.

 

Clara Pinto Correia

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